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O que é agroecologia?

Verdade seja dita: é muito sedutora a ideia de deduzir o conceito de agroecologia apenas separando a palavra em “partes” e analisando-as com base no que geralmente somos ensinados sobre o que é “agro/agricultura” e sobre o que é “ecologia“.

Mas o quê pode haver de tão diferente se há anos estamos acostumados com campanhas que tentam sensibilizar massivamente sobre causas ecológicas, por exemplo salvar a Amazônia, a Mata Atlântica, o boto rosa, o mico leão dourado… ? Como não associar o que é “agro“, se todo dia na televisão a locução de um vídeo cheio de imagens-clichê diz que tudo quanto é coisa do agro é pop ?

O fato é que conceitos-padrão-massificados limitam muito o entendimento do que é agroecologia, e prejudicam a possibilidade de perceber o quanto esta é uma das mais bonitas, completas e potentes abordagens de relação humana com a terra, com a produção de alimentos e com os diversos seres que são parte desse processo. E de perceber, ainda, que ela é um ferramenta super importante para as transformações sociais e ambientais que precisamos.

Agroecologia diz respeito a praticar uma agricultura na qual humanidade e natureza estão integradas.

Características importantes
Praticada em bases populares e familiares, a agroecologia geralmente aponta algumas características como:

  • ser praticada em pequenas propriedades;
  • produção para o consumo familiar e/ou para abastecimento de mercados locais;
  • adaptação de tecnologias à realidade específica;
  • elevado conhecimento sobre ciclos agrícolas e da natureza;
  • produção própria de sementes e insumos;
  • possibilitar trocas informais e colaborativas (trabalho, conhecimento, excedente de produção), e cooperação solidária em rede;
  • canal direto produtor – consumidor;
  • autogestão simplificada pela própria comunidade produtora
  • valorização dos saberes ancestrais

A Agroecologia promove uma integração sistêmica desses diversos elementos, recusando ser uma prática isolada e, ainda mais, em ser limitada como é um monocultivo.

A Natureza é uma só – e nós somos parte dela
Essa integração sistêmica nos mostra que na prática agroecológica os vários elementos e seres que existem no ambiente devem ser manejados com muito cuidado. Dessa forma, a ação humana não ultrapassa limites naturais da existência ou da presença desses elementos no ambiente, e segue, ela própria, as características culturais locais dos agricultores e agricultoras que a praticam em cada região, em cada lugar. Tornando-nos assim um elemento a mais nesse agroecossistema, sem causar impacto e mantendo-o com diversidade – algo fundamental para que se mantenha em equilíbrio.

Agroecossistemas equilibrados e com bastante diversidade de cultivos demandam menor investimento de trabalho e insumos, uma vez que seus próprios elementos interagem na medida exata de manter o sistema ativo, produtivo e nas condições favoráveis para todas as formas de vida nele presentes. Sistemas equilibrados são mais resistentes e a produção oriunda tem altos índices nutritivos, reforçando o sistema imunológico e ativando anticorpos.

História e referências da agroecologia
Citamos acima a má-ideia de deduzir sobre agroecologia a partir da separação das partes da palavra, e analisar com base em informações massificadas. Cabe então referenciar sobre a origem do termo e suas definições básicas, conforme ensina o autor Pedro Antonio Gaddo Torres em sua pesquisa realizado na UFRGS no ano de 2008 :

A agroecologia é derivada de duas ciências, a ecologia e a agronomia. Cada uma delas ocupando-se de suas próprias pesquisas. A ecologia preocupa-se, preferencialmente, de estudar os sistemas naturais e a agronomia dedica-se à prática da agricultura. (…) No final da década de 1920 a ecologia e agronomia se cruzam quando passam a ser desenvolvidos estudos e experiências de cultivos ecológicos. (…) O termo agroecologia vai ser proposto por estes ecologistas na década de 1930 e o fizeram no sentido do uso da ecologia aplicada à agricultura. Deste período até a segunda guerra mundial a ecologia consolida-se como ciência e sua aplicação nas práticas agrícolas acaba ficando como função própria dos agrônomos.

Seguindo a cronologia histórica a que se refere a citação, começa a partir de década de 1940 um período de grandes transformações geopolíticas de um mundo pós-guerra que incluem, por exemplo, profundas mudanças em práticas agrícolas. Estas diziam respeito a uma cadeia articulada de medidas e investimentos de base, apoiados e financiados pelo poder econômico e político em escala mundial. O que vem daí é uma prática agrícola voltada para aumentos exponenciais de produtividade agropecuária, através de intenso uso químico, alta mecanização e avanço sobre propriedades de pequeno e médio portes.

Ao mesmo tempo em que essas transformações aconteciam nos cenários macro econômico e político, em outras partes e com outras abordagens, alguns conceitos iam surgindo em ambientes acadêmicos/pedagógicos que, de certa forma, começavam a ajudar a formar crítica e reflexão. É dessa época, a partir dos anos 1950, que conceitos como o de ecossistema, por exemplo, começam a ser disseminados.

Vale ressaltar que bem nessa época, em 1948, chegava para consolidar-se no Brasil junto com a família, a estudiosa austríaca Annemarie Conrad, que aqui ficou conhecida por Ana Maria Primavesi

Engenheira agrônoma de formação, ela foi uma das maiores referências em agroecologia com os estudos, pesquisas e trabalhos que produziu ao longo dos anos. Sua atuação defendia a relação do homem com o ambiente e questionava a lógica do capital na agricultura: Sem a natureza não existimos mais, ela é a base da nossa vida. Lutar pela terra, lutar pelas plantas, lutar pela agricultura, porque se não vivermos dentro da agricultura, vamos acabar. Não tem vida que continue sem terra, sem agricultura. Recentemente falecida (janeiro de 2020), deixou extenso legado técnico e sensível sobre entendimento do solo como um organismo vivo e sobre manejo ecológico.

A força popular e dos pequenos, os saberes históricos e a produção acadêmica
O processo de desvalorização de conhecimentos tradicionais remonta longa data. Se pensarmos bem, não é difícil perceber que, no caso do Brasil, desde a chegada dos portugueses estamos passando por uma contínua supressão de práticas de cultivo e modos de vida, em nome de interesses de relações de poder para poucos, e de modos bem questionáveis. Escravização de povos transformados em mão de obra; exploração abusiva de imigrantes; estímulo desenfreado à monocultura latifundiária para fins de exportação; Revolução “Verde” no pós II Guerra; transformação tecnológica e química extrema que levam ao que hoje é chamado agronegócio; são exemplos de como historicamente subjugamos conhecimentos tradicionais. E constatações bem iniciais de como essa prática predatória vem trazendo consequências ambientais e sociais há bastante tempo.

Apesar disso, a agricultura familiar se mantém, de todos modos, como um dos pilares de abastecimento em diferentes escalas, quase como uma resistência silenciosa ante a voracidade do contexto geral onde é inserida. Adequada à produção familiar e camponesa, a cultura agroecológica geralmente é bem atrelada ao comércio local de alimentos básicos para a população. Através do fortalecimento de comunidades de agricultores familiares, ela reforça o senso de cooperação, do trabalho associativo na produção e comercialização, e nos movimentos por defesa de condições sociais gerais.

Mas ao mesmo tempo que atua em pequenas escalas de comércios locais, a agricultura familiar também tem papel importantíssimo em escalas maiores, desempenhando papel fundamental em uma extensa cadeia de valor que abastece grandes centros urbanos.

Tão fundamental a ponto de ter grande participação em estudos e análises do setor acadêmico sobre o tema. Nas plataformas das bibliotecas digitais de universidades públicas brasileiras há inúmeras teses de bacharelado, mestrado e doutorado tratando sobre a agroecologia em diferentes aspectos e abordagens de conhecimento, como na UFRGS, na UFSC ou na UFBA.

Outro exemplo de participação do ambiente acadêmico na agroecologia e na agricultura familiar é o projeto BOTA NA MESA, iniciativa do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV EAESP. Atuando desde 2015, “busca promover a inclusão da agricultura familiar na cadeia de alimentos, considerando o comércio justo, a conservação ambiental e a segurança alimentar e nutricional.” O trabalho desenvolvido ao longo desses anos, levou à construção de certas diretrizes, em desdobramento das experiências de atuação em campo, apoiando cooperativas de agricultores familiares no acesso e desenvolvimento de mercados para suas produções. Essas Diretrizes Bota na Mesa dizem respeito a 5 temas da cadeia de alimentos identificados como prioritários pelo grupo: juventude na agricultura, infraestrutura e tecnologia, relações de consumo (em 2018), transição agroecológica e mudança do clima (em 2019). Especificamente sobre agricultura familiar e o abastecimento de grandes centros urbanos,  o projeto gerou esta publicação na qual compartilha identificação de desafios e sugestões de encaminhamentos práticos.

Assim como o potencial de um sistema agroecológico é melhor aproveitado quando diverso em diferentes cultivos, uma rede de conhecimento sobre o tema pode ser altamente rica quando dispuser de grande diversidade de informações, relatos e experiências de quem a pratica, estuda e apóia.

Nesse sentido, a manutenção do compartilhamento de saberes populares e tradicionais continua sendo fundamental nessa rede, uma vez que valoriza e fortalece através do contato direto, individual e através da afetividade da oralidade.

O acúmulo de conhecimentos que comunidades tradicionais têm sobre ciclos naturais e sobre as relações que compõem os ambientes é de valor inestimável, e é baseado neles que a Agroecologia mais se fundamenta. Uma visão contemporânea de que é possível agregar conhecimentos científicos, com critério e coerência, que potencializem ainda mais esses saberes tradicionais, precisam ser sempre muito cuidadosos para não descaracterizar a cultura comunitária tradicional.

Relação com a terra é direta e potente na prática agroecológica. (Fotos: Projeto Depois da Curva)

Agroecologia como ferramenta de transformações sociais
Nesse momento da existência humana, estamos diante de claríssimos sinais do esgotamento de sistemas produtores em latifúndios de monoculturas para exportação, e de tudo o que demanda para ser praticada, com as consequências trágicas que traz tanto para a população rural quanto para a urbana.

As profundas transformações no campo que iniciaram gigantesco movimento de êxodo para as cidades, somado ao sistema econômico que cada vez mais acentua diferenças sociais pela de desigualdade de oportunidades e condições, há anos continuam sendo determinantes para trazer complexidade ao cenário político-social e a certeza de que sem transformações estruturais de base qualquer solução tende a ser paliativa, temporária, ineficaz ou, pior ainda, seletiva.

Nesse sentido, e em contra-posição a esse modelo auto-destrutivo de construção de sociedade, falar sobre conceitos e definições teóricas de Agroecologia sem citar o trabalho desenvolvido pelo MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra seria deixar de lado um dos melhores exemplos que existem no mundo sobre como é possível praticar uma agricultura que não seja destrutiva ao meio e que traga os benefícios que cada ponta da cadeia alimentar necessita.

Um tempo atrás o Movimento alcançou a marca de se tornar o maior produtor de arroz agroecológico do mundo, fato noticiado por inúmeras fontes, como nesta matéria da BBC ou nesta da Revista Globo Rural, e atestado por organismos de certificação nacionais e internacionais. Essa é uma conquista marcante mas que não encerra a agroecologia na atuação do MST.

Ao longo dos anos o  Movimento foi percebendo que a luta pela causa do acesso à terra pelos trabalhadores rurais era insuficiente como contribuição ao problema da produção de alimentos, e passaram a incorporar a agroecologia com mais força de atuação e diálogo com a sociedade rural e urbana. A existência de programas de cooperativismo entre famílias de cultivo agroecológico permite que elas se fortaleçam como núcleos e como grupo, se preparem ainda mais em estrutura e experimentem mais oportunidades de escoamento de suas produções.

Com a agroecologia, a liberdade de exercer sua atividade sendo respeitados e valorizados, a obtenção de aprendizados e conhecimentos de planejamento e organização vindos da atuação cooperativa, e a possibilidade de praticar seus saberes culturais históricos, dá a essas famílias uma das condições humanitárias mais básicas: a de ter e desempenhar uma função social.

E junto com isso, força para resistir, para reivindicar e continuar sendo exemplo para a sociedade.

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TEXTO: colaborativo
FOTOS: F. Pepe Guimarães | F14 FOTOGRAFIA.com

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O Instituto trabalha para o fortalecimento da comunidade, e faz isso através da arte, da cultura, e do uso de soluções para a auto-suficiência (em termos de água, alimento e energia). Sua visão é tornar-se um modelo replicável e um centro de educação para a autonomia e para a paz – tanto entre seres humanos, como entre seres humanos e o meio-ambiente.

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(continua) …