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Observar e Interagir: relatos de uma paulistana em êxodo urbano

“Não existimos por nós mesmos. Só existimos realmente porque fazemos existirem outras coisas”,
David Lapoujade, As Existências Mínimas.

Sou paulistana, nascida e criada na capital. Meu contato com os movimentos de agrofloresta, bioconstrução e horta urbana levaram-me a estudar permacultura com o Coletivo PermaSampa. Sentia desejo de começar a mergulhar nessa outra vida, ao mesmo tempo em que a própria vida foi me conduzindo para fora da cidade. Calhou de eu ter me mudado para São Francisco Xavier, na Serra da Mantiqueira, pouco antes de estourar a pandemia. O projeto era ativar a “Casa do Arco”, o conceito de um espaço aberto para residências artísticas e vivências envolvendo agroecologia, permacultura, um agregado de experiências e práticas para pessoas que, como eu, também estão em transição. Veio, contudo, a quarentena impondo o isolamento e entendi que, antes de qualquer projeto, era preciso primeiro incubar essa minha nova vida. Assim que vou contar um pouco sobre como cheguei até aqui, pois não vejo essa mudança como uma ‘decisão’, mas como a constelação de uma série de linhas que me conduziram.

Se vale uma dica para quem agora começa a pensar em fazer a transição para o campo, eu diria que a primeira coisa é introduzir algumas mudanças de hábitos antes mesmo de sair da cidade: adotar a compostagem, começar uma pequena hortinha, observar sua produção de resíduos, estudar o impacto ambiental de seu modo de consumo. Considerar que você pode descobrir uma enorme redução de seus gastos vivendo num ambiente onde poder dormir ouvindo o som do rio, colher seu alimento ou sentir a respiração das montanhas era tudo o que você precisava para sentir-se preenchidx. E que, pelo fato se sentir privadx dessas coisas na cidade, acabava tendo que ir a restaurantes, bares, lojas ou assinar NetFlix. Vivo essa coisa linda de roça que são os presentes dos vizinhos. Ganho caldo de cana, mandioca, limões, abacates, mudas, hortaliças, bananas… Pego leite da vaquinha do meu vizinho para produzir meu kefir. Compro queijo de cabra de uma criadora a 2km daqui. Trocamos coisas, formando vínculos, partilhamos da comunidade. 

Quando ainda não se sabe para onde ir tampouco qual é o projeto, é importante permitir-se ficar um pouco à deriva. “Perder-se também é caminho”, dizia Clarice Lispector. Circular por aí, visitando cidades, fazendas, sítios, plantações. Participar de mutirões nesses lugares, ir pondo o pé nesse chão para sentir os diversos tipos de contextos. Fazer-se algumas perguntas preliminares: em que clima me vejo vivendo? Gosto de baixa ou alta umidade? Desejo estar no alto das montanhas, num vale ou numa planície? Plantar para minha subsistência ou adquirir terras para um plantio comercial? Não saberemos responder a essas perguntas de pronto, mas elas precisam ser formuladas a fim de orientar nosso espírito para ir ao encontro do lugar, afinal um novo projeto de vida não se organiza sem algumas bússolas. Por isso gosto do que estou fazendo: aluguei uma casa em meio à comunidade local com um jardim gostoso que me permite ensaiar e esboçar essa transformação das narrativas. Vivo só e aqui me sinto segura com vizinhos mais ou menos visíveis desde a minha casa. Porque são tantas as demandas de nosso espírito e tantas as coisas que ainda não sabemos sobre nós mesmos, que nem sempre é possível ter tudo traçado de antemão. Pode acontecer de as metas iniciais se revelarem apenas metáforas, que sem dúvida foram necessárias para nos impulsionar numa direção.

Os sinais de que era aqui o meu destino foram tão claros que não houve como não deixar o rio me levar. Enquanto muitas pessoas passam mal na estrada sinuosa que liga São José dos Campos a SFX, eu por minha vez vivi momentos memoráveis de profundos insights a caminho daqui. Então, amar a estrada que me trazia para cá e sempre agradecer às montanhas por terem me permitido retornar era meu ritual de chegada. Desde sempre soube que vinha para viver uma metamorfose. Aliás, na minha opinião, não estamos aqui para ‘encontrar a felicidade’, mas sim para aprender a dançar com a vida. E, se  isso decorre em felicidade, é porque creio firmemente na ideia de que só há verdadeira realização de si quando reconquistamos o amor pelas ações mais fundamentais do viver em consonância com o ecossistema. 

Nesse sentido, as ferramentas, as técnicas e os conceitos de que fazemos uso para aprender um modo mais abundante, ético e sustentável de existir ganham um estatuto mágico. São os ‘instrumentos de poder’ que pavimentam os caminhos de cura – nossa e da Terra. Tenho refletido muito sobre o sentido mais profundo – e pouco glamuroso – da palavra ‘regenerar’. É sobre depararmo-nos com hábitos, comportamentos e perspectivas que, não obstante todo o repertório de conhecimentos que possamos ter adquirido, não conseguimos transformar num workshop ou curso de formação. E a pandemia veio me fazer parar tudo pra praticar o primeiro princípio que aprendemos em Permacultura: observar e interagir. Significa dar-se o tempo necessário para ser afetado e modificado inteiramente pela paisagem. Desde que vivo aqui, venho aprendendo que ‘observar e interagir’ é um processo febril e intenso. Todos os dias são beija-flores, aranhas, ventos, cachorros, gatos e seres invisíveis que entram e saem pelas minhas portas e janelas impondo-me o desafio de me relacionar com essas presenças, pois de fato é preciso morrer para renascer em Gaya. 

Minha estratégia (e isso é inteiramente pessoal) foi adotar a preguiça como método. Montei meus canteiros usando palhada da braquiária roçada de um querido meu vizinho. Arrumei um fornecedor de esterco. Desço de vez em quando até a floresta pra encher sacos de coisas caídas no chão para cobrir e nutrir a horta. Fico circulando os restos da cozinha por diferentes setores do jardim, pois uma vez completado o processo de compostagem tem-se já um canto adubado para o plantio (além das próprias mudas que brotam dali). Vou preguiçosamente abrindo minhas nadadeiras nessa nova atmosfera, procurando atuar menos e escutar mais. Tenho sentido os ventos e o canto dos pássaros com uma intensidade por vezes até incômoda. É que tanta beleza me exige novas competências de absorção e então me dou conta de que havia passado a vida inteira a me privar de tudo isso apenas para hoje poder me sentir constantemente arrebatada. Embora isso soe poético, não é pouca coisa para o corpo assimilar. Portanto, ações pequenas e lentas.

E me parece que se essa não for a tarefa inicial, se não for aprender o idioma das águas e das árvores, familiarizarmo-nos com as micro e macrobiotas, a multiplicidade das presenças até de fato começar a nos sentir parte dessa ciranda, então não vejo como poderemos prosseguir enquanto humanidade. A transição que nos é pedida não se resume a montar uma composteira, uma agrofloresta ou um banheiro ecológico: por trás de tudo isso, o que estamos preparando é um salto em direção a uma nova ontologia. E o projeto de descolonização de si precisa começar a germinar na cidade. Minha amiga Tânia Campos, idealizadora da Casa.Planta, adota práticas permaculturais em sua casa na Vila Madalena e propõe-nos uma pergunta-provocação: “O que pode uma casa?”. É com esse tipo de pergunta que vamos nos endereçando para fora da vida urbana, pois o que queremos é restaurar os saberes ancestrais e reencantar as tarefas simples da vida. Devolver a alma ao mundo e imantar os gestos mais triviais… acordar ao amanhecer, cuidar das plantas, alimentar-se, amar, produzir coisas bonitas, contemplar as belezas, as mudanças na paisagem, partilhar o convívio, descansar. É para isso que estamos aqui! 

Da Vinci dizia que o amor nasce do profundo conhecimento que cultivamos do objeto amado. Quero acreditar que a missão do Covid, como já foi dito tantas vezes, é nos despertar do estado de anestesiamento em que temos vivido como coletividade humana, para nos empurrar em direção a um modo de existir mais fecundo e vital. Vivendo há menos de um ano longe das cidades e perto do rio, venho me curando de minhas atrofias e fragilidades à medida em que descubro novas forças e capacidades nos novos fazeres que se apresentam nesse ambiente. Nada é tão compensador e curativo quanto testemunhar a semente que suas mãos plantaram e adubaram desde seu germinar até a colheita de seus frutos, flores ou folhas. Acompanhar e aprender sobre os ciclos, tornar-se parte deles, dançar com a existência. De modo que estou diariamente me versando nos modos e desígnios da floresta a fim de que ela um dia me torne uma melhor designer de mim-no-mundo. Futuramente, comprar um sítio e iniciar uma plantação de chá e ervas para infusão. Sigo por enquanto nesse devir-borboleta… constelando as composições, aceitando os riscos, maravilhando-me com os embriões de vida, esboçando alguns vôos e sentindo profunda alegria. Sinto não ter coisas mais objetivas a dizer, mas nesse momento tudo o que sou é travessia.

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