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Centro de distribuição de alimentos agroecológicos é inaugurado em São Paulo

Em plena pandemia de corona virus a cidade de São Paulo ganhou um novo presente: um entreposto de alimentos agroecológicos produzidos no cinturão verde da cidade, o Galpão Agroecológico.

Com a saúde em risco por conta do novo vírus e a economia em crise por conta da quarentena, milhares de pessoas em vulnerabilidade viram as suas situações ainda mais agravadas. Com a fome e as enfermidades batendo com força à porta de tantas famílias nasce na cidade uma iniciativa, os Anticorpos Agroecológicos. O grupo arrecadou dinheiro com quem pode doar e comprou alimentos provenientes da agricultura familiar afim de distribuí-los para quem precisa nas periferias da cidade.

Depois de 9 toneladas de alimentos doados providos por 19 núcleos de produção agroecológica, distribuídos graças ao apoio de dezenas de voluntários, atendendo a 110 comunidades na periferia da capital paulista, a rede conseguiu locar um espaço no bairro do Rio Pequeno, no subdistrito do Butantã, na zona oeste de São Paulo. 

Segundo Lucas Ciola, um dos fundadores do Anticorpos Agroeológicos, os produtores da rede agroecológica paulista já careciam de um entreposto dentro da cidade de São Paulo mesmo antes da chegada do vírus e como toda crise traz oportunidades, “a pandemia propiciou conseguirmos esse espaço para chegada e armazenamento dos alimentos na cidade e nós esperamos mantê-lo mesmo depois que a crise passar”.

Agroecologia: remédio contra a pandemia

Para quem não tem familiaridade com o movimento da agroecologia, falamos de “uma rede de coletivos que planta, colhe, doa alimentos, apoia agricultores familiares e a preservação da natureza, ocupa espaços urbanos com hortas, busca conexões com o mundo rural, faz barulho e pressão por políticas públicas que levem abundância e qualidade nutricional para a população, inclusive tirando o veneno dos nossos pratos e da nossa água” explica a co-deputada estadual pela Bancada Ativista, Cláudia Visoni.

Para poder distribuir os alimentos produzidos no cinturão verde de Sampa dentro da capital, se faz necessário um entreposto, ou seja, um centro de distribuição que receba os caminhões de madrugada cheios de comida recém colhida e armazene tudo em condições adequadas até que os distribuidores locais venham buscar. 

No modelo atual de distribuição de comida fresca da capital paulista, toda a produção do Brasil vai parar num único local, o CEAGESP, onde todos os distribuidores incluindo as redes de supermercados, lojas, sacolões, feirantes etc vão buscar a comida que será então vendida para o consumidor final.

Sabe aquele melão amarelinho, lindo e maravilhoso que custa uma fortuna no supermercado do seu bairro? Foi comprado do produtor a um valor baixíssimo, produzido com um monte de agrotóxico e rodou mais de 3 mil kilômetros para chegar do Ceará até o CEAGESP, queimando um monte de óleo diesel ao longo de todo o caminho até se encontrar com todos os demais produtos que vem de longe até se encontrarem na avenida mais poluída do Brasil, a Gastão Vidigal, onde fica nosso único centro de distribuição. 

Modelo descentralizado

A rede agroecológica paulista propõe um modelo diferente. Ao invés de concentrarmos tudo o que vem de longe num único centro de distribuição, sua proposta é fomentar a criação de vários galpões espalhados pelos quatro cantos da cidade, cada um recebendo alimentos produzidos perto de si. 

O Galpão Agroecológico surgiu no bairro do Rio Pequeno, na zona Oeste paulistana, e os principais fornecedores hoje são a Rama Rede Agroecológica de Mulheres Agricultoras da Barra do Turvo, e também o MST da regional grande São Paulo e eventualmente de outras regiões.  Nenhum dos alimentos vendidos no galpão levou veneno para ser produzido e todos vieram de coletivos, cooperativas, redes ou movimentos que produzem no sistema de agricultura familiar, pagando um valor justo e tratando as familias produtoras com o devido respeito e admiração.

Feira livre com comida orgânica, educação ambiental e arte

Além de atuar como centro de distribuição, o Galpão Agroecológico atua também pretende atuar como feira-livre aos sábados, oferecendo ao público da Zona Oeste a possibilidade de comprar seus alimentos por ali mesmo (acompanhe a programação na página antes de sair de casa).

Além da venda de comida e de alimentos beneficiados pela rede agroecológica como geléias, pães, molhos, cervejas artesanais e até vinhos orgânicos, a idéia é que aos poucos o galpão receba atividades culturais: shows, oficinas de permacultura e demais atividades culturais que facilitem a integração entre o público da região e os princípios da agroecologia. 

Segundo Juliana Prado, gerente do espaço, “a feira tem como objetivo ajudar o galpão a se tornar sustentável a longo prazo, que é um projeto social que visa a promoção e fomento da agroecologia aqui no bairro”.

A feira do galpão está aberta a receber novos produtos dos produtores agroecológicos das cercanias paulistanas e também de artesãos interessados em vender seus produtos por consignação na feira. Os interessados podem falar diretamente com a turma dos Anticorpos Agroecológicos via redes sociais

A idéia é boa? Bora apoiar!

A iniciativa está no começo, é pequena e enfrenta muitos desafios pela frente, mas tem tudo para ser um belo exemplo para ser seguido por toda a cidade. Quer fortalecer o projeto? Entre na página dos Anticorpos Agroecológicos, compre seus produtos, divulgue para a sua rede e acompanhe de perto a sua trajetória.

Serviço

Endereço: Av. Otacilio Tomanik, 926, Butantã
Horário de atendimento: consulte-os via redes sociais.

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O que é agroecologia?

Verdade seja dita: é muito sedutora a ideia de deduzir o conceito de agroecologia apenas separando a palavra em “partes” e analisando-as com base no que geralmente somos ensinados sobre o que é “agro/agricultura” e sobre o que é “ecologia“.

Mas o quê pode haver de tão diferente se há anos estamos acostumados com campanhas que tentam sensibilizar massivamente sobre causas ecológicas, por exemplo salvar a Amazônia, a Mata Atlântica, o boto rosa, o mico leão dourado… ? Como não associar o que é “agro“, se todo dia na televisão a locução de um vídeo cheio de imagens-clichê diz que tudo quanto é coisa do agro é pop ?

O fato é que conceitos-padrão-massificados limitam muito o entendimento do que é agroecologia, e prejudicam a possibilidade de perceber o quanto esta é uma das mais bonitas, completas e potentes abordagens de relação humana com a terra, com a produção de alimentos e com os diversos seres que são parte desse processo. E de perceber, ainda, que ela é um ferramenta super importante para as transformações sociais e ambientais que precisamos.

Agroecologia diz respeito a praticar uma agricultura na qual humanidade e natureza estão integradas.

Características importantes
Praticada em bases populares e familiares, a agroecologia geralmente aponta algumas características como:

  • ser praticada em pequenas propriedades;
  • produção para o consumo familiar e/ou para abastecimento de mercados locais;
  • adaptação de tecnologias à realidade específica;
  • elevado conhecimento sobre ciclos agrícolas e da natureza;
  • produção própria de sementes e insumos;
  • possibilitar trocas informais e colaborativas (trabalho, conhecimento, excedente de produção), e cooperação solidária em rede;
  • canal direto produtor – consumidor;
  • autogestão simplificada pela própria comunidade produtora
  • valorização dos saberes ancestrais

A Agroecologia promove uma integração sistêmica desses diversos elementos, recusando ser uma prática isolada e, ainda mais, em ser limitada como é um monocultivo.

A Natureza é uma só – e nós somos parte dela
Essa integração sistêmica nos mostra que na prática agroecológica os vários elementos e seres que existem no ambiente devem ser manejados com muito cuidado. Dessa forma, a ação humana não ultrapassa limites naturais da existência ou da presença desses elementos no ambiente, e segue, ela própria, as características culturais locais dos agricultores e agricultoras que a praticam em cada região, em cada lugar. Tornando-nos assim um elemento a mais nesse agroecossistema, sem causar impacto e mantendo-o com diversidade – algo fundamental para que se mantenha em equilíbrio.

Agroecossistemas equilibrados e com bastante diversidade de cultivos demandam menor investimento de trabalho e insumos, uma vez que seus próprios elementos interagem na medida exata de manter o sistema ativo, produtivo e nas condições favoráveis para todas as formas de vida nele presentes. Sistemas equilibrados são mais resistentes e a produção oriunda tem altos índices nutritivos, reforçando o sistema imunológico e ativando anticorpos.

História e referências da agroecologia
Citamos acima a má-ideia de deduzir sobre agroecologia a partir da separação das partes da palavra, e analisar com base em informações massificadas. Cabe então referenciar sobre a origem do termo e suas definições básicas, conforme ensina o autor Pedro Antonio Gaddo Torres em sua pesquisa realizado na UFRGS no ano de 2008 :

A agroecologia é derivada de duas ciências, a ecologia e a agronomia. Cada uma delas ocupando-se de suas próprias pesquisas. A ecologia preocupa-se, preferencialmente, de estudar os sistemas naturais e a agronomia dedica-se à prática da agricultura. (…) No final da década de 1920 a ecologia e agronomia se cruzam quando passam a ser desenvolvidos estudos e experiências de cultivos ecológicos. (…) O termo agroecologia vai ser proposto por estes ecologistas na década de 1930 e o fizeram no sentido do uso da ecologia aplicada à agricultura. Deste período até a segunda guerra mundial a ecologia consolida-se como ciência e sua aplicação nas práticas agrícolas acaba ficando como função própria dos agrônomos.

Seguindo a cronologia histórica a que se refere a citação, começa a partir de década de 1940 um período de grandes transformações geopolíticas de um mundo pós-guerra que incluem, por exemplo, profundas mudanças em práticas agrícolas. Estas diziam respeito a uma cadeia articulada de medidas e investimentos de base, apoiados e financiados pelo poder econômico e político em escala mundial. O que vem daí é uma prática agrícola voltada para aumentos exponenciais de produtividade agropecuária, através de intenso uso químico, alta mecanização e avanço sobre propriedades de pequeno e médio portes.

Ao mesmo tempo em que essas transformações aconteciam nos cenários macro econômico e político, em outras partes e com outras abordagens, alguns conceitos iam surgindo em ambientes acadêmicos/pedagógicos que, de certa forma, começavam a ajudar a formar crítica e reflexão. É dessa época, a partir dos anos 1950, que conceitos como o de ecossistema, por exemplo, começam a ser disseminados.

Vale ressaltar que bem nessa época, em 1948, chegava para consolidar-se no Brasil junto com a família, a estudiosa austríaca Annemarie Conrad, que aqui ficou conhecida por Ana Maria Primavesi

Engenheira agrônoma de formação, ela foi uma das maiores referências em agroecologia com os estudos, pesquisas e trabalhos que produziu ao longo dos anos. Sua atuação defendia a relação do homem com o ambiente e questionava a lógica do capital na agricultura: Sem a natureza não existimos mais, ela é a base da nossa vida. Lutar pela terra, lutar pelas plantas, lutar pela agricultura, porque se não vivermos dentro da agricultura, vamos acabar. Não tem vida que continue sem terra, sem agricultura. Recentemente falecida (janeiro de 2020), deixou extenso legado técnico e sensível sobre entendimento do solo como um organismo vivo e sobre manejo ecológico.

A força popular e dos pequenos, os saberes históricos e a produção acadêmica
O processo de desvalorização de conhecimentos tradicionais remonta longa data. Se pensarmos bem, não é difícil perceber que, no caso do Brasil, desde a chegada dos portugueses estamos passando por uma contínua supressão de práticas de cultivo e modos de vida, em nome de interesses de relações de poder para poucos, e de modos bem questionáveis. Escravização de povos transformados em mão de obra; exploração abusiva de imigrantes; estímulo desenfreado à monocultura latifundiária para fins de exportação; Revolução “Verde” no pós II Guerra; transformação tecnológica e química extrema que levam ao que hoje é chamado agronegócio; são exemplos de como historicamente subjugamos conhecimentos tradicionais. E constatações bem iniciais de como essa prática predatória vem trazendo consequências ambientais e sociais há bastante tempo.

Apesar disso, a agricultura familiar se mantém, de todos modos, como um dos pilares de abastecimento em diferentes escalas, quase como uma resistência silenciosa ante a voracidade do contexto geral onde é inserida. Adequada à produção familiar e camponesa, a cultura agroecológica geralmente é bem atrelada ao comércio local de alimentos básicos para a população. Através do fortalecimento de comunidades de agricultores familiares, ela reforça o senso de cooperação, do trabalho associativo na produção e comercialização, e nos movimentos por defesa de condições sociais gerais.

Mas ao mesmo tempo que atua em pequenas escalas de comércios locais, a agricultura familiar também tem papel importantíssimo em escalas maiores, desempenhando papel fundamental em uma extensa cadeia de valor que abastece grandes centros urbanos.

Tão fundamental a ponto de ter grande participação em estudos e análises do setor acadêmico sobre o tema. Nas plataformas das bibliotecas digitais de universidades públicas brasileiras há inúmeras teses de bacharelado, mestrado e doutorado tratando sobre a agroecologia em diferentes aspectos e abordagens de conhecimento, como na UFRGS, na UFSC ou na UFBA.

Outro exemplo de participação do ambiente acadêmico na agroecologia e na agricultura familiar é o projeto BOTA NA MESA, iniciativa do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV EAESP. Atuando desde 2015, “busca promover a inclusão da agricultura familiar na cadeia de alimentos, considerando o comércio justo, a conservação ambiental e a segurança alimentar e nutricional.” O trabalho desenvolvido ao longo desses anos, levou à construção de certas diretrizes, em desdobramento das experiências de atuação em campo, apoiando cooperativas de agricultores familiares no acesso e desenvolvimento de mercados para suas produções. Essas Diretrizes Bota na Mesa dizem respeito a 5 temas da cadeia de alimentos identificados como prioritários pelo grupo: juventude na agricultura, infraestrutura e tecnologia, relações de consumo (em 2018), transição agroecológica e mudança do clima (em 2019). Especificamente sobre agricultura familiar e o abastecimento de grandes centros urbanos,  o projeto gerou esta publicação na qual compartilha identificação de desafios e sugestões de encaminhamentos práticos.

Assim como o potencial de um sistema agroecológico é melhor aproveitado quando diverso em diferentes cultivos, uma rede de conhecimento sobre o tema pode ser altamente rica quando dispuser de grande diversidade de informações, relatos e experiências de quem a pratica, estuda e apóia.

Nesse sentido, a manutenção do compartilhamento de saberes populares e tradicionais continua sendo fundamental nessa rede, uma vez que valoriza e fortalece através do contato direto, individual e através da afetividade da oralidade.

O acúmulo de conhecimentos que comunidades tradicionais têm sobre ciclos naturais e sobre as relações que compõem os ambientes é de valor inestimável, e é baseado neles que a Agroecologia mais se fundamenta. Uma visão contemporânea de que é possível agregar conhecimentos científicos, com critério e coerência, que potencializem ainda mais esses saberes tradicionais, precisam ser sempre muito cuidadosos para não descaracterizar a cultura comunitária tradicional.

Relação com a terra é direta e potente na prática agroecológica. (Fotos: Projeto Depois da Curva)

Agroecologia como ferramenta de transformações sociais
Nesse momento da existência humana, estamos diante de claríssimos sinais do esgotamento de sistemas produtores em latifúndios de monoculturas para exportação, e de tudo o que demanda para ser praticada, com as consequências trágicas que traz tanto para a população rural quanto para a urbana.

As profundas transformações no campo que iniciaram gigantesco movimento de êxodo para as cidades, somado ao sistema econômico que cada vez mais acentua diferenças sociais pela de desigualdade de oportunidades e condições, há anos continuam sendo determinantes para trazer complexidade ao cenário político-social e a certeza de que sem transformações estruturais de base qualquer solução tende a ser paliativa, temporária, ineficaz ou, pior ainda, seletiva.

Nesse sentido, e em contra-posição a esse modelo auto-destrutivo de construção de sociedade, falar sobre conceitos e definições teóricas de Agroecologia sem citar o trabalho desenvolvido pelo MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra seria deixar de lado um dos melhores exemplos que existem no mundo sobre como é possível praticar uma agricultura que não seja destrutiva ao meio e que traga os benefícios que cada ponta da cadeia alimentar necessita.

Um tempo atrás o Movimento alcançou a marca de se tornar o maior produtor de arroz agroecológico do mundo, fato noticiado por inúmeras fontes, como nesta matéria da BBC ou nesta da Revista Globo Rural, e atestado por organismos de certificação nacionais e internacionais. Essa é uma conquista marcante mas que não encerra a agroecologia na atuação do MST.

Ao longo dos anos o  Movimento foi percebendo que a luta pela causa do acesso à terra pelos trabalhadores rurais era insuficiente como contribuição ao problema da produção de alimentos, e passaram a incorporar a agroecologia com mais força de atuação e diálogo com a sociedade rural e urbana. A existência de programas de cooperativismo entre famílias de cultivo agroecológico permite que elas se fortaleçam como núcleos e como grupo, se preparem ainda mais em estrutura e experimentem mais oportunidades de escoamento de suas produções.

Com a agroecologia, a liberdade de exercer sua atividade sendo respeitados e valorizados, a obtenção de aprendizados e conhecimentos de planejamento e organização vindos da atuação cooperativa, e a possibilidade de praticar seus saberes culturais históricos, dá a essas famílias uma das condições humanitárias mais básicas: a de ter e desempenhar uma função social.

E junto com isso, força para resistir, para reivindicar e continuar sendo exemplo para a sociedade.

OUTROS CONCEITOS

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OUTROS TEXTOS PRA VOCÊ

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Entenda o que é um Vermifiltro e como as minhocas podem nos ajudar a resolver o problema do saneamento básico no Brasil.

Esquema de um Vermifiltro Fonte Tonetti et al 2018

O vermifiltro (ou filtro biolítico) é um sistema de saneamento super simples que funciona basicamente como um minhocário que recebe as águas da privada da casa. Conforme você pode ver no desenho feito pelo pesquisador da UNICAMP Adriano Tonetti, a descarga da água da privada entra por cima no filtro, onde moram as minhocas. Os resíduos sólidos, ou seja, o cocô, vai virar janta de minhocas. Os líquidos vão escorrer pelo sistema que possui camadas de palha ou serragem e pedras antes de sair por um “ralo” no fundo.

A idéia parece estranha numa primeira leitura mas acreditem, esse filtro atua como 3 sistemas de tratamento integrados em um só:

  1. ele remove sólidos (cocô) cumprindo a função da fossa séptica
  2. diminui a cor e turbidez das águas atuando como um filtro
  3. o xixi das minhocas mata as bactérias da água, atuando como um desinfectante

Bom, bonito e barato.

O mais incrível é que um sistema desses pode ser construído fazendo reúso de uma bombona de transporte de alimento (como as que utilizamos para fazer as famosas minicisternas), mais umas poucas peças de tubulação de esgoto, ou seja, é um sistema de saneamento de esgoto super acessível e simples, podendo portanto ser replicável em diversas comunidades mundão adentro. No Chile por exemplo, a tecnologia já é super replicada e começou a ser utilizada na descentralização do tratamento do esgoto desde 1998.

Manejo periódico

Obviamente nem tudo são flores, principalmente quando falamos de esgoto: o sistema requer manejo a cada aproximadamente 6 meses. Se poucas pessoas utilizarem o sistema e ele for bem dimensionado, o manejo pode ser anual. Simples, o manejo consiste em adicionar nova palha ao sistema. É isso mesmo, não é necessário remover o humus (cocô das minhocas) de dentro do vermifiltro. A água da descarga derrete esse humus que sai do sistema como efluente líquido.

Água sanitária ou desinfectantes químicos? hmmmm…

Outro ponto importante ao qual é importante nos atentarmos é que a partir do momento em que temos minhocas no nosso sistema de tratamento de esgoto, não podemos mais usar água sanitária e demais produtos industrializados na limpeza do nosso vaso sanitário. Ou seja, o usuário desse sistema precisa aderir a uma mudança de hábitos e passar a utilizar produtos naturais para faxinar o seu banheiro. Esses produtos podem ser feitos em casa através da fermentação da casca de frutas cítricas que sobraram da cozinha como ensina a receita da enzima do lixo.

Veja como foi a instalação de um dos 15 vermifiltros instalados em São Francisco Xavier pelo projeto Protegendo as Águas, orientados pela Fluxus.

É preciso separar as águas.

Outro detalhe para nos atentarmos é o fato desse filtro receber exclusivamente a água das descargas. Ou seja, caso o esgoto da sua casa esteja todo unificado – águas do banho, cozinha, lavanderia e do vaso sanitário juntas – será necessário primeiro separá-las antes de implementar o sistema para o tratamento do seu esgoto. Lembrando que para cada qualidade de águas usadas em casa existe um tratamento específico que pode ser adotado a fim de conseguirmos reutilizá-las dentro de casa ou infiltrá-las no solo, no seu belo pomar,  por exemplo…

Fatores limitantes.

Se por acaso o lençol freático do seu terreno for bem alto, tipo cavou achou água, então o vermifiltro não é uma tecnologia indicada para a sua situação. Se o nível do lençol tiver mais de um metro e meio de profundidade então está tudo certo!

Uma última coisa importante para nos atentarmos é que para o sistema funcionar da forma mais simples, precisamos que o terreno possua um desnível, uma vez que o líquido sai por baixo do reservatório. Se o terreno for plano é necessária a utilização de uma bomba, o que deixa o sistema um pouco mais complexo e pode ser, em alguns casos, um fator limitante à sua utilização. A situação ideal para o uso dessa tecnologia requer um quintal com declividade, muito mais fácil portanto de ser replicável em zonas rurais.

Caso você precise de informações técnicas sobre o assunto, dê uma olhada na revista DAE no. 220 a partir da página 128. Bons estudos!

Como fazer um vermifiltro?

Ah sim, se você é da mão na massa e quer aprender a fazer o seu próprio sistema, a nossa amiga Karin Hanzi do Epicentro Dalva ensina o passo a passo de como construir um vermifiltro no vídeo aqui abaixo. Divirta-se!

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3º – obtenha rendimento

Horta em mandala do acampamento Marielle Vive. Plantas de ciclo rápido geram rendimento em até 2 meses. Foto: MST.

O terceiro princípio do planejamento permacultural é “obtenha rendimento”. Será que o que David Holmgren estava querendo dizer é que o nosso trabalho deve gerar dinheiro? Essa é sem dúvida uma forma de rendimento. Mas podemos ampliar o sentido da palavra, como veremos à seguir.

Entendemos por rendimento todos os recursos gerados no local que possam suprir as necessidades dos seus habitantes. Para quem vive na zona rural, o dinheiro pode não ser tão importante quanto para quem vive na cidade. Uma galinha, alguns kilos de batata doce ou manivas daquela mandioca maravilhosa podem ser excelentes moedas de troca com os seus vizinhos.

 “desenhar sistemas e organizar nossas vidas de modo a obtermos rendimento através de meios que otimizem a potência de trabalho útil de tudo o que fazemos”

Neste princípio “obtenha rendimento” Holmgren nos convida a incluirmos no nosso planejamento, além de investimentos de longo prazo como o plantio de árvores que poderão ser colhidas daqui a 7 anos, ações que nos gerem um retorno rápido.

Produza comida, madeira, água, adubo, energia elétrica, aproveite portanto a energia do seu trabalho para produzir recursos capazes de atender as suas e as demandas dos demais seres vivos que compartilham a morada contigo e que dependem do seu esforço ou obtem melhor qualidade de vida a partir do seu planejamento.

Ouça a Julhiana Costal, falando do seu jardim na Zona Norte de São Paulo sobre como obter rendimento a curto prazo na realidade urbana.

Conheça os 12 princípios do planejamento permacultural:

01- Observe e Interaja - princípios da permacultura

1º – Observe e interaja

O primeiro dos 12 princípios da permacultura nos convida a conhecer muito bem o ambiente para o qual vamos planejar antes de começarmos a atuar.

2º – Capte e armazene energia

Um dos trabalhos mais importantes do permacultor é identificar os resursos acessíveis em seu local de atuação. A água da chuva, por exemplo acessível durante

3º – obtenha rendimento

O terceiro princípio do planejamento permacultural é “obtenha rendimento”. Será que o que David Holmgren estava querendo dizer é que o nosso trabalho deve gerar dinheiro?

5º – Use e valorize os serviços e recursos renováveis

Quando falamos sobre recursos renováveis, tradicionalmente pensamos na energia solar, na energia eólica, até a força das marés já são utilizadas na geração de energia elétrica. Mas aqui neste post nós vamos ampliar um pouco esse conceito.

6º – Não produza desperdícios

Quando a gente começa a fazer permacultura, passamos a perceber que tudo pode ser encarado como recurso. Com esse novo olhar, começamos a buscar maneiras de usar e reusar tudo, às últimas consequências.

7º – Projete dos padrões aos detalhes

Este princípio nos convida a observarmos o nosso espaço de fora para dentro. Primeiro vamos olhar para o macro, para o local onde estamos inseridos, o bioma, os ciclos, as características que pertencem à região como um todo para a partir de então, olharmos para as especificidades da terra para qual estamos planejando (projetando).

8º – Integrar ao invés de segregar

O oitavo princípio do planejamento permacultural nos convida a refletirmos sobre o velho conceito de independência. Será que é isso que buscamos no design permacultural?

9º – Use soluções pequenas e lentas

Quem tem pressa, além de comer cru, dá um monte de mancada nos seus afazeres, não é mesmo? O nono princípio do planejamento permacultural reforça que os sistemas pequenos e lentos são mais fáceis de manter do que os grandes, fazendo melhor uso dos recursos locais e produzindo resultados mais sustentáveis.

10º – Use e valorize a diversidade

Quem tem pressa, além de comer cru, dá um monte de mancada nos seus afazeres, não é mesmo? O nono princípio do planejamento permacultural reforça que os sistemas pequenos e lentos são mais fáceis de manter do que os grandes, fazendo melhor uso dos recursos locais e produzindo resultados mais sustentáveis.

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Jardim Agroecológico

O Jardim Agroecológico é orgânico, regenerativo, sem venenos ou insumos químicos. Considera o ser humano parte integrante da natureza e segue os princípios da permacultura e agroecologia: cuidar da terra, cuidar das pessoas, compartilhar saberes e colheitas, cuidar do futuro.

Quando Andrea Pesek chegou na sua nova morada no ano de 2017, encontrou no quintal um gramado triste, a terra seca e compactada. Decidiu então dedicar-se a transformar aquele quintal num oasis de abundância utilizando-se de todo o conhecimento que adquiriu em anos de regeneração de espaços públicos e nascentes urbanas como a Praça da Nascente, Horta das Corujas, Nascentes do Iquiririm, Nascentes da Jóia entre outras.

Cultivar um jardim que imita os processos da natureza é curar um pedacinho do planeta. Os pedacinhos somados resultam no mundo abundante que sonhamos juntos. O que permanece para além da nossa existência? Que memória iremos imprimir em nossa passagem pela Terra? Criar um jardim agroecológico é uma forma de manifestar nosso desejo de permanência da vida.

Hoje, o jardim de 250 metros quadrados abriga mais de 300 espécies de plantas harmoniosamente misturadas, como picão, serralha, bertalha, capuchinha, milho, abóbora, buva, trapoeraba, almeirão selvagem, dente de leão, centelha asiática, ora pro nobis, feijão mangalô, feijão gandu, tabaco selvagem, taioba, gengibre, cúrcuma, mamona, mamoeiro, bananeira, pitangueira, muitas ervas e muitas flores. 

Andrea realiza vivências bimestrais no Jardim Agroecológico, oferece consultoria presencial para quem quer transformar os seus quintais em jardins agroecológicos e eventualmente seus serviços de jardinagem. Como sabe que não pode cuidar de todos os jardins do mundo, ela se dedica em transmitir os seus conhecimentos e capacitar o máximo de jardineiros agroecológicos que puder.

De jardim em jardim a floresta vencerá o asfalto.

A água da chuva é a guia do desenho do Jardim Agroecológico.