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Entenda o que é um Vermifiltro e como as minhocas podem nos ajudar a resolver o problema do saneamento básico no Brasil.

Esquema de um Vermifiltro Fonte Tonetti et al 2018

O vermifiltro (ou filtro biolítico) é um sistema de saneamento super simples que funciona basicamente como um minhocário que recebe as águas da privada da casa. Conforme você pode ver no desenho feito pelo pesquisador da UNICAMP Adriano Tonetti, a descarga da água da privada entra por cima no filtro, onde moram as minhocas. Os resíduos sólidos, ou seja, o cocô, vai virar janta de minhocas. Os líquidos vão escorrer pelo sistema que possui camadas de palha ou serragem e pedras antes de sair por um “ralo” no fundo.

A idéia parece estranha numa primeira leitura mas acreditem, esse filtro atua como 3 sistemas de tratamento integrados em um só:

  1. ele remove sólidos (cocô) cumprindo a função da fossa séptica
  2. diminui a cor e turbidez das águas atuando como um filtro
  3. o xixi das minhocas mata as bactérias da água, atuando como um desinfectante

Bom, bonito e barato.

O mais incrível é que um sistema desses pode ser construído fazendo reúso de uma bombona de transporte de alimento (como as que utilizamos para fazer as famosas minicisternas), mais umas poucas peças de tubulação de esgoto, ou seja, é um sistema de saneamento de esgoto super acessível e simples, podendo portanto ser replicável em diversas comunidades mundão adentro. No Chile por exemplo, a tecnologia já é super replicada e começou a ser utilizada na descentralização do tratamento do esgoto desde 1998.

Manejo periódico

Obviamente nem tudo são flores, principalmente quando falamos de esgoto: o sistema requer manejo a cada aproximadamente 6 meses. Se poucas pessoas utilizarem o sistema e ele for bem dimensionado, o manejo pode ser anual. Simples, o manejo consiste em adicionar nova palha ao sistema. É isso mesmo, não é necessário remover o humus (cocô das minhocas) de dentro do vermifiltro. A água da descarga derrete esse humus que sai do sistema como efluente líquido.

Água sanitária ou desinfectantes químicos? hmmmm…

Outro ponto importante ao qual é importante nos atentarmos é que a partir do momento em que temos minhocas no nosso sistema de tratamento de esgoto, não podemos mais usar água sanitária e demais produtos industrializados na limpeza do nosso vaso sanitário. Ou seja, o usuário desse sistema precisa aderir a uma mudança de hábitos e passar a utilizar produtos naturais para faxinar o seu banheiro. Esses produtos podem ser feitos em casa através da fermentação da casca de frutas cítricas que sobraram da cozinha como ensina a receita da enzima do lixo.

Veja como foi a instalação de um dos 15 vermifiltros instalados em São Francisco Xavier pelo projeto Protegendo as Águas, orientados pela Fluxus.

É preciso separar as águas.

Outro detalhe para nos atentarmos é o fato desse filtro receber exclusivamente a água das descargas. Ou seja, caso o esgoto da sua casa esteja todo unificado – águas do banho, cozinha, lavanderia e do vaso sanitário juntas – será necessário primeiro separá-las antes de implementar o sistema para o tratamento do seu esgoto. Lembrando que para cada qualidade de águas usadas em casa existe um tratamento específico que pode ser adotado a fim de conseguirmos reutilizá-las dentro de casa ou infiltrá-las no solo, no seu belo pomar,  por exemplo…

Fatores limitantes.

Se por acaso o lençol freático do seu terreno for bem alto, tipo cavou achou água, então o vermifiltro não é uma tecnologia indicada para a sua situação. Se o nível do lençol tiver mais de um metro e meio de profundidade então está tudo certo!

Uma última coisa importante para nos atentarmos é que para o sistema funcionar da forma mais simples, precisamos que o terreno possua um desnível, uma vez que o líquido sai por baixo do reservatório. Se o terreno for plano é necessária a utilização de uma bomba, o que deixa o sistema um pouco mais complexo e pode ser, em alguns casos, um fator limitante à sua utilização. A situação ideal para o uso dessa tecnologia requer um quintal com declividade, muito mais fácil portanto de ser replicável em zonas rurais.

Caso você precise de informações técnicas sobre o assunto, dê uma olhada na revista DAE no. 220 a partir da página 128. Bons estudos!

Como fazer um vermifiltro?

Ah sim, se você é da mão na massa e quer aprender a fazer o seu próprio sistema, a nossa amiga Karin Hanzi do Epicentro Dalva ensina o passo a passo de como construir um vermifiltro no vídeo aqui abaixo. Divirta-se!

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3º – obtenha rendimento

Horta em mandala do acampamento Marielle Vive. Plantas de ciclo rápido geram rendimento em até 2 meses. Foto: MST.

O terceiro princípio do planejamento permacultural é “obtenha rendimento”. Será que o que David Holmgren estava querendo dizer é que o nosso trabalho deve gerar dinheiro? Essa é sem dúvida uma forma de rendimento. Mas podemos ampliar o sentido da palavra, como veremos à seguir.

Entendemos por rendimento todos os recursos gerados no local que possam suprir as necessidades dos seus habitantes. Para quem vive na zona rural, o dinheiro pode não ser tão importante quanto para quem vive na cidade. Uma galinha, alguns kilos de batata doce ou manivas daquela mandioca maravilhosa podem ser excelentes moedas de troca com os seus vizinhos.

 “desenhar sistemas e organizar nossas vidas de modo a obtermos rendimento através de meios que otimizem a potência de trabalho útil de tudo o que fazemos”

Neste princípio “obtenha rendimento” Holmgren nos convida a incluirmos no nosso planejamento, além de investimentos de longo prazo como o plantio de árvores que poderão ser colhidas daqui a 7 anos, ações que nos gerem um retorno rápido.

Produza comida, madeira, água, adubo, energia elétrica, aproveite portanto a energia do seu trabalho para produzir recursos capazes de atender as suas e as demandas dos demais seres vivos que compartilham a morada contigo e que dependem do seu esforço ou obtem melhor qualidade de vida a partir do seu planejamento.

Ouça a Julhiana Costal, falando do seu jardim na Zona Norte de São Paulo sobre como obter rendimento a curto prazo na realidade urbana.

OUTROS CONCEITOS

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Jardim Agroecológico

O Jardim Agroecológico é orgânico, regenerativo, sem venenos ou insumos químicos. Considera o ser humano parte integrante da natureza e segue os princípios da permacultura e agroecologia: cuidar da terra, cuidar das pessoas, compartilhar saberes e colheitas, cuidar do futuro.

Quando Andrea Pesek chegou na sua nova morada no ano de 2017, encontrou no quintal um gramado triste, a terra seca e compactada. Decidiu então dedicar-se a transformar aquele quintal num oasis de abundância utilizando-se de todo o conhecimento que adquiriu em anos de regeneração de espaços públicos e nascentes urbanas como a Praça da Nascente, Horta das Corujas, Nascentes do Iquiririm, Nascentes da Jóia entre outras.

Cultivar um jardim que imita os processos da natureza é curar um pedacinho do planeta. Os pedacinhos somados resultam no mundo abundante que sonhamos juntos. O que permanece para além da nossa existência? Que memória iremos imprimir em nossa passagem pela Terra? Criar um jardim agroecológico é uma forma de manifestar nosso desejo de permanência da vida.

Hoje, o jardim de 250 metros quadrados abriga mais de 300 espécies de plantas harmoniosamente misturadas, como picão, serralha, bertalha, capuchinha, milho, abóbora, buva, trapoeraba, almeirão selvagem, dente de leão, centelha asiática, ora pro nobis, feijão mangalô, feijão gandu, tabaco selvagem, taioba, gengibre, cúrcuma, mamona, mamoeiro, bananeira, pitangueira, muitas ervas e muitas flores. 

Andrea realiza vivências bimestrais no Jardim Agroecológico, oferece consultoria presencial para quem quer transformar os seus quintais em jardins agroecológicos e eventualmente seus serviços de jardinagem. Como sabe que não pode cuidar de todos os jardins do mundo, ela se dedica em transmitir os seus conhecimentos e capacitar o máximo de jardineiros agroecológicos que puder.

De jardim em jardim a floresta vencerá o asfalto.

A água da chuva é a guia do desenho do Jardim Agroecológico.