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O que a explosão do Porto de Beirute tem a ver com nosso sistema alimentar?

No dia 04.08, uma explosão na região portuária de Beirute, capital do Líbano, fez centenas de mortos, devastou grande parte da cidade e deixou 300 mil pessoas desabrigadas. O incidente foi causado por 2.750 toneladas de nitrato de amônio estocadas na região portuária há seis anos sem medidas preventivas.

O nitrato de amônio é um dos fertilizantes mais utilizados na agricultura mundial e também usado na fabricação de explosivos. Sim, o mesmo composto químico que adicionamos à produção de comida também é usado para provocar explosões e incêndios.

Um dos grandes marcos do atual sistema alimentar, baseado na produção em larga escala de commodities como milho, soja e trigo, foi o ano de 1947. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano viu a maior fábrica de nitrato de amônio do mundo para explosivos, em Muscle Shoals, Alabama, com um enorme excedente. Já se sabia que este era uma excelente fonte de nitrogênio para as plantas, então veio a ideia de espalhar o nitrato de amônio na agricultura.

Michael Pollan, em O Dilema do Onívoro, afirma que “A indústria de fertilizantes químicos (juntamente com a de pesticidas, que são baseados nos gases venenosos desenvolvidos para a guerra) é produto do esforço do governo para converter sua máquina de guerra para outros fins em tempo de paz. Como a ativista indiana Vandana Shiva diz: “Ainda estamos comendo as sobras da Segunda Guerra Mundial”.”

E qual é o problema da produção de nitrato de amônio para a agricultura?

O nitrogênio é fundamental para a produção de alimentos e para a síntese de proteínas que compõem os seres vivos. Ele está presente na atmosfera (N2), mas somos incapazes de utilizá-lo, e seu consumo ocorre através das plantas. A fixação do N2 é realizada por bactérias que vivem nas raízes das leguminosas, como feijões, ervilhas, soja e alfafa, que o transformam em moléculas necessárias à vida. Por isso, tradicionalmente, a agricultura é feita com a sábia rotatividade de cultivos, alternando a plantação de cereais com feijões, soja etc. 

Até 1908, essa era a única forma de se obter nitrogênio. Com o processo de Haber-Bosch,  passou-se a obter amônia e nitrato para uso como fertilizantes para a agricultura a partir de reações químicas de altas temperaturas e pressão. Esse processo é muito dispendioso e envolve quantidades elevadas de combustíveis fósseis. 

No modelo agrícola atual de produção de commodities, monoculturas plantadas em larga escala para servir principalmente de insumo para ração animal e ingredientes para alimentos ultraprocessados, a demanda por alta produtividade faz que fertilizantes químicos sejam amplamente empregados. 

O uso excessivo de fertilizantes industriais tem impactado nas emissões de gases de efeito estufa (pelo menos um quinto das emissões totais destes gases pode ser atribuído ao setor agrícola) e gerado uma perturbação nas concentrações naturais de nitrogênio tanto no solo quanto em ambientes aquáticos, causando eutrofização em águas continentais e marinhas costeiras. Esse fenômeno pode desencadear proliferação de algas que diminuem a concentração de oxigênio na água, criando “zonas mortas“, como a do Golfo do México, onde a vida marinha tornou-se inviável.

Além de provocar desequilíbrios nos ecossistema, esse composto pode ainda causar problemas respiratórios em seres humanos, disfunções na tireóide e câncer.

A cada catástrofe como essa de Beirute, que não foi a primeira e nem será a última, fica mais nítido que nosso atual sistema alimentar está em desequilíbrio e em desarmonia profunda com os seres vivos e o planeta.

Imagens de arquivo de operações portuárias em Santos/SP: porto recebe volume superior ao explodido em Beirute (F.Pepe Guimarães/F14 Fotografia)

Perigos futuros – Brasil

OAB Subseção de Santos oficiou autoridades sobre a segurança do transporte e armazenamento do nitrato de amônio, cuja quantidade que chega ao porto santista, a cada navio, é dez vezes maior que a de Beirute. Na visão da entidade, caso não sejam tomadas providências, pode acontecer no Porto de Santos uma destruição duas vezes pior do que a bomba que atingiu Hiroshima, em 1945.

Cabe esclarecer, como nota do SINDEX (Sindicato das Indústrias de Explosivos no Estado de São Paulo) e da ABIMEX (Associação Brasileira das Indústrias de Materiais Explosivos), que “o Nitrato de Amônio não detona por si só, ou seja, para que ocorra uma detonação é necessário um conjunto de fatores, tais como, temperatura, condições incorretas de armazenagem que ocasionem confinamento e a presença de um elemento combustível. Portanto, seguidas as diretrizes de segurança vigentes, o Nitrato de Amônio é um produto químico seguro.”

Mesmo que seguidos os protocolos de segurança, a questão aqui é: precisamos mesmo de uma agricultura altamente dependente de tantos produtos químicos, fabricados a partir de combustíveis fósseis, que causam tremendo impacto ambiental e põem em risco a vida de milhares de pessoas? Nos fizeram acreditar que sim, mas isso tem mais a ver com interesses econômicos que com um real disposição de promover a segurança alimentar, já que, mesmo com todos os avanços científicos e tecnológicos da agricultura, 2 bilhões de pessoas (26,4% da população mundial) sofrem de insegurança alimentar.

É complexo, é profundo, é extremamente difícil mudar esse sistema, mas tomar consciência é o primeiro passo de qualquer transformação. Não se conformar é o segundo.

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//Deixo minha solidariedade ao povo do Líbano.