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1º – Observe e interaja

01- Observe e Interaja - princípios da permacultura

Antes de arregaçar as mangas, pegar a enxada e sair arrepiando o terreno, pare e observe o ambiente com o qual pretende interagir. Quando conhecemos o espaço, o bioma, o clima de um lugar, estamos prontos para tomar a primeira atitude que a permacultura nos ensina: planejar. Quem procurou por cursos de permacultura encontrou os populares PDCs. A sigla em inglês resume Permaculture Design Course. Em português quer dizer Curso de Desenho (ou Planejamento) Permacultural.

Não é à toa que o primeiro princípio do planejamento seja a observação. É impossível se realizar um bom planejamento permacultural sem antes conhecer muitíssimo bem a dinâmica natural, os ciclos do lugar. Qual o clima do seu espaço? Faz frio o ano todo? Será então que aquela mangueira que você ganhou do seu amigo vai bem por aí? Aquele seu desejo de plantar palmito, aí no alto das montanhas, será uma boa ideia? Quais as plantas mais comuns por aí, você já as conhece? E os pássaros? Qual o regime de chuvas da região? As nascentes diminuem muito no período de estiagem? Será inteligente pensar em cavar açudes? Essas e muitas outras respostas surgem da observação. Os designers mais experientes dizem que é importante observar um local por pelo menos um ano antes de iniciar o planejamento, ou seja, ter vivido pelo menos uma vez cada uma das 4 estações.

Princípio aplicado a uma residência na cidade

Já no meio urbano, tomemos como exemplo uma família que acaba de se mudar para uma casa e pretende fazer uma horta no pequeno quintal: com muros por todos os lados e sombreada também pela enorme casa de dois andares, o frio quintal recebe pouco tempo de sol. Mudaram-se no verão e percebem que o corredor lateral é o local com maior incidência solar. Quebram o piso de concreto de toda a lateral da casa, plantam de tudo na época de chuvas e tem uma primeira colheita satisfatória. Alguns meses depois surge o primeiro problema: o sol do inverno não chega até o chão e todas as plantas se entristecem. Mas as paredes do muro ainda recebem sol, aparentemente o ano todo. Será que um sistema de hidroponia não seria mais apropriado para a produção de alimentos nesse corredor? Ou será que a laje da garagem (onde eles nunca subiram para observar) não seria o local mais apropriado para se produzir alimentos nessa casa?

Outra possibilidade para quem vive nos centros urbanos são as praças públicas, os linhões das concessionárias de energia e de água, ou até terrenos baldios abandonados. Existem diversas possibilidades “marginais” aguardando a intervenção de pequenos grupos de vizinhos interessados em se reconectar com a terra. Observando o seu bairro, você descobrirá outras possibilidades de locais e também grupos de pessoas às quais associar-se pode ser uma boa pedida. Mais uma vez, observemos.

Princípio aplicado ao urbanismo

 

Quantas São Paulos vemos nessa foto? Observar requer a escuta de diversos pontos de vista para o planejamento em situações de super adensamento populacional.

O recurso natural mais abundante numa cidade grande é o recurso humano, as pessoas. Portanto “observar” neste meio significa não somente olhar para a movimentação social, mas ouvir as pessoas e entender através da escuta as suas necessidades, crenças, hábitos culturais para a partir de então pensar num planejamento para este grupo, neste local específico.

Cada comunidade possui características geográficas, políticas, sociais e culturais específicas e por esse motivo a observação caso a caso se faz imprescindível. Um bairro habitado por uma população com grande concentração de renda possui características específicas. A poucos metros dali, quiçá distanciados pela presença de um muro, temos outra população com renda e hábitos culturais muito diferentes. Se faz super necessária a observação de ambos os lados para poder se delinear um projeto de design capaz de integrar ao invés de segregar as pessoas. Certamente as bordas, no caso esse muro, seria um elemento importantíssimo no nosso planejamento.

Outros pontos de vista

Ouçamos agora a experiente Julhiana Costal, integrante do coletivo Arboreser, que há muitos anos pratica a permacultura urbana e produz alimentos na sua casa na Zona Norte de São Paulo.

OUTROS CONCEITOS

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O que é permacultura?

As 3 éticas e os 12 princípios da permacultura. Fonte da imagem: http://permacultureprinciples.com/pt/

O termo Permacultura nasceu lá na Austrália, na década de 1970 por dois acadêmicos: Bill Molison e David Holmgren. Inconformados com a idéia de que era necessário se usar agrotóxicos e insumos industriais, poluir os rios, o solo e acabar com a biodiversidade para se produzir comida, resolveram inventar uma nova maneira de plantar, em harmonia com a natureza. Logo no começo da pesquisa os agrônomos entenderam que não precisavam inventar nada: a resposta para as suas buscas estava na reconecção com os saberes ancestrais e foi então se aproximando da cultura dos aborígenes da sua terra que nasceu a idéia da permacultura.

O termo era então uma abreviação de “Agricultura Permanente”. Mas esse conceito foi se transformando ao longo dos anos. A Permacultura passou a abrigar também outros conhecimentos, a fazer gestão dos recursos energéticos, a estudar os padrões naturais, a compreender que toda a matéria é fonte de recursos e integrar-se à ecologia. Se transformou numa ferramenta de planejamento de assentamentos humanos (a princípios propriedades rurais) e seu significado ganhou muito mais amplitude, transformando-se em “Cultura da Permanência”.

Hoje entendemos a permacultura como uma ciência holística de cunho socioambiental que conecta os saberes tradicionais com a sistematização acadêmica: o popular e o erudito, o sertanejo e o doutor sentados na mesma mesa tomando café com bolo assado no forno à lenha enquanto o drone faz o mapeamento da propriedade para o trabalho de planejamento. Sabedoria ancestral e tecnologia de vanguarda trabalhando juntas, regidas por princípios éticos, cuidando do futuro dos seres humanos e do restante da natureza da qual um dia nos esquecemos que fazemos parte.

Éticas da permacultura

  1. Cuidar da terra
  2. Cuidar das pessoas
  3. Cuidar do futuro*

*Pensadores da permacultura tem discutido o terceiro princípio então pode ser que você encontre Cuidar do futuro (Dixon, 2014; Harland, 2018; McKenzie e Lemos, 2008), Partilha justa (Holmgreen, 2002) ou Limites ao crescimento e ao consumo (Mollison, 1988)

Os 12 princípios para o planejamento (design) permacultural

1. Observe e interaja 
2. Capte e armazene energia 
3. Obtenha rendimento
 
4. Pratique a autorregulação e aceite conselhos (feedbacks) 
5. Use e valorize os serviços e recursos renováveis 
6. Não produza desperdícios
7. Design partindo de padrões para chegar aos detalhes 
8. Integrar ao invés de segregar
9. Use soluções pequenas e lentas 
10. Use e valorize a diversidade 
11. Use os limites e valorize o marginal 
12. Responda criativamente às mudanças 

Estamos produzindo um post para cada princípio incluindo exemplos práticos de cada um deles. Enquanto isso você pode se aprofundar no tema consultando o site de um dos pais da Permacultura, David HolmGreen. Acesse aqui Os Princípios da Permacultura.

Como a permacultura atua na prática?

A ferramenta mais importante que a permacultura nos oferece é a metodologia de design de propriedades, que chamamos hoje no Brasil de “planejamento permacultural”. O planejamento consiste em entender as necessidades de todos os seres habitantes da propriedade, o que oferecem energeticamente, quais os recursos presentes no lugar e pensar de que maneira podemos conectá-los afim de que o ciclo se feche e, com o mínimo de esforço todos tenham as suas necessidades supridas.

“Além de incidir sobre um design sustentável de ambientes, a permacultura propõe também mudanças no âmbito da organização social e política sob a qual vivemos.” escreveu Camila Alba no seu estudo Planejamento Permacultural Urbano escrito para a UFSC.